segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pedagonet: a ciência do futuro.

Autor(es): Arnaldo Niskier
Correio Braziliense - 11/02/2012

Membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/Rio
Estamos vivendo um período de grandes perplexidades e, aparentemente, muitas contradições. Por um lado, alguns intelectuais mais apressados anunciaram o fim dos livros, jornais e revistas impressos em papel. Comemoram, com isso, a sobrevivência de milhões de árvores que deixariam de ser abatidas.
Por outro lado, foi divulgada a notícia de que, no Brasil, nos dois últimos anos, a venda de jornais cresceu significativamente, em parte devido à ampliação dos limites da nossa classe média, em virtude do sucesso das políticas econômicas do governo. E um dado formidável: os jovens estão lendo mais, não se contentando apenas com as notícias colhidas na internet.
É claro que o fenômeno alcança em cheio os livros didáticos, uma indústria muito prestigiada pelo Ministério da Educação, que compra quase R$ 900 milhões por ano de livros para distribuição gratuita a alunos carentes das nossas escolas de educação básica. Já imaginaram o baque que representaria o fim ou a diminuição dessas compras às principais editoras do nosso país, algumas das quais têm se associado a gigantes do mercado internacional?
Não existe uma visão clara a respeito do problema. A poderosa Apple (lucro de US$ 13 bilhões no último trimestre de 2011) lançou mais dúvidas quando anunciou a sua entrada, nos Estados Unidos, no grande mercado de educação, produzindo livros eletrônicos de altíssima qualidade e a preço baixo. Vêm aí tabuletas coloridas, lousas eletrônicas, associadas a vídeos e jogos interativos, que fascinam o espírito dos nossos jovens. Teremos cursos on-line e aulas virtuais que acabarão configurando o que chamamos de pedagonet, ou seja, uma nova visão da pedagogia do futuro, mudando completamente o que até aqui considerávamos a tradicional relação ensino-aprendizagem.
Os professores serão substituídos pelas máquinas? Mesmo que os novos livros custem menos de US$ 10, nessa nova realidade, a nosso ver será sempre necessária a orientação e o aconselhamento dos mestres, sobretudo quando advierem as dúvidas naturais. Quem as tirará? O sonho de que isso possa ser feito em casa, por pais preparados, não contempla a realidade dos fatos. Sabe-se que, na prática, somente 10% dos pais se envolvem nos estudos dos filhos, sendo esse número ínfimo quando se trata de escolas públicas. Esse quadro não nos parece que possa ser mudado com facilidade — e em pouco tempo.
O que precisa ser feito — e aí vai um conselho não solicitado pelo ministro Aloizio Mercadante — é uma revolução rápida e inadiável nos cursos de formação de professores. É matéria para figurar no anunciado Pacto Nacional da Educação. Fala-se nisso há tanto tempo que se tornou uma ladainha cansativa, sem resultados práticos. Quem conhece os cursos de pedagogia, como é o nosso caso, não acredita que eles possam sobreviver, nas suas atuais estruturas, que passam ao largo de todas essas incríveis mudanças.
Há milhares de professores que não sabem utilizar um computador, outros milhares não têm acesso às máquinas novidadeiras. Se eles não sabem, são orientados pelos alunos, numa inversão da dinâmica desejável. Os jovens são sensíveis, respeitam os que sabem mais, não os que aprendem com eles.
Eis aí um desafio posto à face da atual geração. O Conselho Nacional de Educação, que merece o nosso respeito, deveria concentrar as suas baterias nesse processo de adaptação da educação brasileira aos novos tempos, deixando de lado questões menores, como a discussão sobre o hipotético "racismo" de Monteiro Lobato. Racismo é cruzar os braços diante do avanço ciclópico do conhecimento e de suas máquinas inovadoras. Que milagre está sendo esperado pela nossa geração para mudar esse quadro?
Em tempo: um dos meus genros, ao ler no computador a nova proposta da Apple, em duas horas de trabalho transformou 100 páginas em papel num belíssimo livro eletrônico.

 
Biografia: Arnaldo Niskier 
 
 
Sétimo ocupante da Cadeira nº 18, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Arnaldo Niskier nasceu no Rio de Janeiro, em 30 de abril de 1935. Filho de Mordko Majer Niskier e Fany Niskier.

Escolaridade
Ensino fundamental: Escola 19 – Canadá (Rio de Janeiro); Grupo Escolar Rodrigues Alves (São Paulo) e Instituto de Educação (Rio de Janeiro).
Ensino médio: Colégio Vera Cruz (Rio de Janeiro).
Curso superior: Bacharel em Matemática (1957) e Licenciado em Matemática (1958) pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (UERJ); Bacharel em Pedagogia (1961) e Pedagogia (1962) pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (UERJ). Doutor em Educação (1964), em decorrência de aprovação no concurso para Livre Docência (UERJ). Catedrático por concurso (1968) de Administração Escolar e Educação Comparada (UERJ). Titular de História e Filosofia da Educação da UERJ, aposentado em 1995.

Atividades atuais
Diretor-Presidente do Instituto Antares – IAN (licenciado)
Diretor-Presidente da Consultor Assessoria de Planejamento Ltda. (desde 1972). (licenciado)
Consultor de Educação da confederação Nacional do Comércio.
Membro do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio (desde 1992).
Membro do Conselho Diretor do Instituto Metropolitano de Altos Estudos (IMAE) – São Paulo.
Membro do Instituto de Estudos Econômicos, Políticos e Sociais da Federação do Comércio de São Paulo.
Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro (2004 e 2005).
Presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional - ( 2005).
Membro do Conselho Editorial da Câmara dos Deputados – (2005).
Secretário de Estado de Educação do Rio de Janeiro (nomeado em 30.03.2006).

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